A anorexia quase tirou minha vida

Por: Gaëlle Charvin (España)

Tenho 26 anos, sofro de anorexia nervosa e atualmente estou no processo de recuperação de uma vida normal para uma mulher da minha idade.

Desde a adolescência tive fixação pelo meu corpo, mas foi só aos 18 anos que tudo começou a sair do controle, depois de um longo período na Inglaterra: comecei a ter dores de estômago diárias e, após vários exames, não encontraram nada que as causasse.

O problema era que eu vinha sofrendo fisicamente com as minhas emoções negativas, mas, como não aceitava que esse fosse o problema, fui piorando física e mentalmente e, sem perceber, a anorexia já estava muito avançada.

Aos 20 anos a situação piorou e comecei a ter medo de comida porque a minha dor persistia, então as restrições foram aumentando.

O gatilho foi aos 24 anos, após eu sofrer um luto pessoal que me levou a ter um controle obsessivo sobre o meu corpo, já que era a única coisa que eu conseguia controlar. O que me alertou de que havia algum problema foram os vômitos repetitivos e descontrolados.

Assim que começou a pandemia, a situação se agravou a ponto de eu ter que deixar o trabalho, enquanto a universidade estava paralisada. Tendo que enfrentar a minha mente caótica, a situação piorou me deixando deprimida, eu parei de comer, os vómitos aumentaram e eu me exercitava excessivamente.

Meu irmão me alertou, mas eu piorava e perdia cada vez mais peso, chegando a menos 30 quilos em poucos meses. Passei a pesar tão pouco que os danos colaterais da doença apareceram ao mesmo tempo em que minha vontade de continuar vivendo se desvaneceu e eu estava sumindo.

Optei por procurar ajuda, então junto com o meu médico de família, o processo começou com vários exames que me levaram a uma internação urgente por risco de morte, pois perdi todas as emoções. Não sentia nada, meu coração funcionava 30% – a doença veio roubar o meu corpo e até a minha vida. Durante a internação, as emoções da doença se manifestaram, e a maneira que encontrei para lidar com isso foi escrever.

Nesse processo, a Covid veio até mim, então me isolaram, sozinha frente a frente com a doença.

Sempre me lembrarei do dia em que fui lentamente ao banheiro e disse a mim mesma, olhando no espelho: “Você vai lutar, você é forte e vai vencer essa doença.”

Minha motivação? Minha família. Eu lutei e luto por ela.

Iniciei este projeto de combate a transtornos alimentares no meu Instagram (@lainvisibilidadelavisiblelucha) com o lema “Valientes guerrer@s acristalados” (Valentes guerreir@s de cristal – em português), como um desafio necessário para tornar essa doença visível, e apoiar e inspirar os outros…

Consegui o primeiro espaço (pioneiro na Galiza) para todas aquelas pessoas que sofrem de TCA e que procuram apoio moderado por uma psicóloga especializada na área e de forma gratuita.

Depressão, ansiedade, isolamento social e anorexia persistem até hoje, mas conto com aqueles que me amam, minha terapeuta, minha família e meus cachorros como forma de terapia.

Há dias em que ainda me sinto submersa, mas continuo a lutar.

É um longo e lento processo de autoconhecimento e de redescoberta de partes de mim que estavam escondidas, pois estou cheia de projetos, iniciativas e com muita criatividade.

Acredito em recuperação 100%, pois se outras pessoas conseguiram, por que eu não conseguiria?

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